4. As duas velas: manter o equilíbrio quando a noite ganha 🕯️
Mabon é uma festa do equilíbrio antes de ser uma festa da colheita. O dia e a noite estão empatados, e a partir daí a noite ganha, até ao Yule e ao solstício de inverno, a 21 de dezembro. É por isso que não lhe proponho uma vela, mas duas, lado a lado.
A primeira é cor de laranja, dourada ou vermelha: as cores da colheita e do Sol que declina. A segunda é branca, ou roxa escura: a noite que chega, o descanso, a vida interior. O essencial está noutro lado: as duas velas são do mesmo tamanho, acendem-se juntas e apagam-se juntas. Não celebra a luz contra a escuridão: aceita as duas.
Como as usar: coloque-as de um lado e do outro da maçã, num prato ou tabuleiro que aguente o calor, longe de cortinados e de espigas secas. Acenda primeiro a cor de laranja, agradecendo ao verão, e depois a branca, dando as boas-vindas ao inverno. Não as sopre no fim: use um apagador ou aperte o pavio com os dedos molhados. Nunca deixe uma chama sem vigilância, e isso vale a dobrar nas noites de lua cheia em que está morto por ir para a cama.
O que as velas despertam: a sua paz com a estação escura. O outono não é um castigo, é outra forma de viver, mais lenta e mais interior. Quem mais o teme é muitas vezes quem mais precisa dele.

O ritual de Mabon: 25 minutos para fazer o balanço das suas colheitas 🍂
Este ritual faz-se sozinho, em casa, em menos de meia hora, com coisas que encontra no mercado ou nos seus armários. Prepare: uma maçã, um cacho pequeno de uvas (ou um copo de sumo), umas espigas de trigo ou ervas secas, duas velas, uma taça pequena, uma folha de papel, uma caneta e um bocado de fio. E, se puder, uma mão-cheia de folhas secas apanhadas lá fora.
⭐ O momento ideal: a noite de sábado, 26 de setembro de 2026, sob a Lua das colheitas. Fica cheia às 17h49, nasce em Lisboa às 19h12, e é o dia em que, em Lisboa, a luz e a escuridão se equilibram ao minuto. Se não puder no sábado, a noite de domingo serve igualmente: a Lua continua a parecer cheia, e é a primeira noite do ano mais longa do que o dia. E se a semana lhe fugir, saiba que Mabon se festeja tradicionalmente durante todo o período do equinócio: o que conta é o gesto, não o relógio.
1. Prepare o espaço. Uma mesa ou o parapeito de uma janela, de preferência virado a nascente, de onde nasce a Lua. Espalhe as folhas, ponha o molho à esquerda, o cacho ao centro, a maçã inteira à sua frente e as duas velas de cada lado. Desligue os ecrãs. Deixe o telemóvel noutra divisão: sim, a sério.
2. Purifique o lugar, com simplicidade. Abra a janela durante dois minutos para renovar o ar, ou faça passar um pouco de fumo de incenso ou de salva à volta da mesa. Se quiser ir mais longe, estes métodos para purificar o seu lar dão outras ideias. Entretanto, respire três vezes, devagar, contando até quatro ao inspirar e até seis ao expirar.
3. Acenda as duas chamas. Primeiro a cor de laranja: «Obrigado, verão, por tudo o que me deste». Depois a branca: «Bem-vinda, noite que chegas, não tenho medo de ti». Deixe-as arder um minuto em silêncio.
4. Corte a maçã. Na horizontal, de um só gesto. Olhe para a estrela. Dê uma primeira dentada na metade esquerda, pensando numa só coisa: o que este ano lhe ensinou. Não o que lhe deu: o que lhe ensinou.
5. Conte as suas colheitas. É o coração do ritual. Por cada coisa que colheu desde a primavera, tire um bago e pouse-o na taça, dizendo-a em voz alta. Um encontro. Uma coragem que não sabia que tinha. Um projeto terminado. Uma relação reparada, ou deixada para trás. Um diagnóstico ultrapassado. Vai ficar surpreendido: ao quinto ou sexto bago, as colheitas começam a vir sozinhas. Conte só o que é real, não o que gostaria que tivesse acontecido.
6. Escreva o que deixa cair. No cimo do papel, uma frase: o que não quer levar para o inverno. Um ressentimento, um hábito, um «tenho de» que o persegue desde janeiro. Rasgue essa tira de papel e ponha-a debaixo das folhas secas: vai-se embora com elas amanhã, para o compostor ou para o ecoponto do papel. Não é preciso queimá-la, e assim é mais seguro.
7. Ate a sua reserva para o inverno. No resto do papel, escreva um único propósito para a estação, no presente: «Guardo tempo para mim todos os domingos». Dobre-o em quatro, envolva-o com uma espiga e ate-o com o fio. Este pequeno molho é o que põe a salvo até à primavera.
8. Agradeça e depois feche. Beba um gole de sumo ou coma um bago da taça. Agradeça a quem quiser: à terra, ao Universo, aos seus guias espirituais, a si mesmo. Depois apague as duas velas ao mesmo tempo. Se a Lua estiver visível, fique um pouco à janela. Ilumina os campos desde que os humanos ceifam.
Depois do ritual: os três dias que contam
O ritual abre uma porta; os três dias seguintes decidem se a atravessa. No dia seguinte, devolva à terra a meia maçã e as folhas, com a tira de papel. No segundo dia, dê um passo concreto, por pequeno que seja, em direção ao seu propósito: marcar na agenda aquele espaço do domingo, por exemplo. No terceiro dia, releia as colheitas que nomeou; pode anotá-las num caderno, que se tornará o seu diário de gratidão do outono. Se a ideia lhe agrada, estas práticas de gratidão para o dia a dia prolongam-na muito bem. O que não precisa de fazer: esperar por um sinal espetacular. Os pequenos sinais do Universo costumam ser discretos, e Mabon é uma festa de fim de ciclo, não de começo.
Por que é que a Lua das colheitas de 26 de setembro conta tanto? 🌕
Porque tem uma particularidade astronómica real, e foi ela que lhe deu o nome. Por volta do equinócio de outono, a trajetória da Lua cruza o horizonte a nascente com um ângulo muito baixo nas nossas latitudes. Consequência: de uma noite para a outra, nasce mais ou menos à mesma hora, em vez de se atrasar em média quase cinquenta minutos por dia. Durante várias noites seguidas, a lua cheia rende o Sol que se põe. Antigamente, essa luz permitia aos camponeses recolher as últimas colheitas depois do anoitecer. Daí o seu nome.
Este ano fica cheia a 26 de setembro às 17h49, em Carneiro, em frente ao Sol em Balança. Quando se levanta no horizonte, baixa e alaranjada, parece enorme: é uma ilusão de ótica bem conhecida, mas faz sempre efeito. E não está sozinha: Saturno brilha muito perto dela, e os dois formam uma conjunção na manhã de domingo, dia 27. Uma Lua que fala de esforço recompensado, com o planeta dos balanços ao seu lado: difícil encontrar melhor noite para Mabon.
É também uma excelente noite para recarregar as suas pedras. Deixe-as no parapeito, do lado de dentro, a noite inteira; o método completo está no guia para carregar os cristais na lua cheia. Para outras ideias nessa noite, veja os rituais para uma noite de lua cheia. E se a estação já lhe pesa, as pedras contra a falta de luz são feitas para as semanas que aí vêm: o citrino e a cornalina ficam muito bem num altar de Mabon.
Para decorar esse altar, pense também nas plantas da estação: um raminho de alecrim, umas flores de calêndula, uma mão-cheia de bolotas ou de castanhas. Muitas figuram entre as plantas com poderes mágicos da tradição, essas ervas carregadas de lendas que se apanhavam precisamente no fim do verão.
O que Mabon não substitui 🤲
Prefiro dizê-lo com clareza, porque um ritual de outono atrai muitas vezes pessoas para quem esta estação é difícil. Mabon é um momento de gratidão e de balanço. Não é uma terapia, nem um tratamento, nem uma garantia de que o inverno vai ser suave.
Se, ao contar as suas colheitas, não encontrar nada, ou se os dias mais curtos trazem há semanas um cansaço que não passa, um sono desregulado e uma perda profunda de vontade, já não é uma questão de velas. É uma questão para um médico, e não há vergonha nenhuma em marcar essa consulta. A tristeza de outono alivia-se melhor quando não a deixamos instalar-se.
Duas precauções práticas, também. Primeiro o fogo: velas num suporte estável, longe de espigas e folhas secas, nunca sem vigilância. Depois o álcool: o vinho de Mabon é uma tradição, não uma obrigação, e um sumo de uva ou uma sidra sem álcool honram a vinha e o pomar da mesma forma.
E um ritual não substitui a partilha. As festas das colheitas eram festas de aldeia, de mesa comprida, de trabalho em comum. Se puder, convide alguém, faça uma tarte de maçã, leve fruta a um vizinho. A gratidão cresce quando se oferece.
E segundo o seu signo? Balança abre a estação ⚖️
O equinócio de outono é, por definição, a entrada do Sol em Balança, o signo do equilíbrio: dois pratos, como o dia e a noite. Se é do signo de Balança, Mabon abre a sua estação solar: a altura do ano em que a sua energia se recarrega de forma mais natural. O seu horóscopo anual de Balança diz-lhe o que o fim de 2026 lhe reserva.
Para todos os signos, o céu de Mabon 2026 é especial. A lua cheia de 26 de setembro joga-se no eixo Carneiro-Balança, entre o «eu» e o «nós», e está rodeada por Saturno e Neptuno em Carneiro. O Sol, além disso, opõe-se a Neptuno a 26 de setembro às 02h36, hora de Lisboa. Em linguagem simbólica: um balanço que pede honestidade sem dureza consigo, que distingue o que construiu de verdade (Saturno) do que apenas sonhou (Neptuno). É exatamente o exercício dos bagos de uva.
Carneiro, sob a sua própria lua cheia, talvez veja com mais clareza do que o costume o que lançou depressa demais. Caranguejo e Capricórnio, em quadratura com este eixo, poderão ter de escolher entre vida privada e vida pública. Mas seja qual for o seu signo, a pergunta de Mabon é a mesma: o que colheu de verdade, e o que escolhe guardar?
❓ Mabon: as suas perguntas frequentes
Quando se celebra Mabon em 2026?
Mabon celebra-se no equinócio de outono, que aconteceu na quarta-feira, 23 de setembro de 2026, à 01h05, hora de Lisboa. Muitos praticantes festejam-no nessa mesma noite ou no fim de semana mais próximo: este ano, o sábado, 26 de setembro, é ideal, porque é a noite da Lua das colheitas, cheia às 17h49.
Mabon é uma verdadeira festa celta?
Não com esse nome. «Mabon» foi proposto em 1974 pelo pagão americano Aidan Kelly, a partir de Mabon ap Modron, uma personagem da literatura galesa medieval. Já as festas das colheitas no fim do verão são muito antigas, do «mês sagrado» anglo-saxão descrito por Beda aos Mistérios de Elêusis na Grécia.
É preciso ser wiccano ou pagão para celebrar Mabon?
Não. O ritual de Mabon é um ritual de gratidão e de balanço, aberto a todos. Pode vivê-lo como uma festa espiritual, como um momento de atenção plena ou simplesmente como uma bela noite de outono. Não exige nenhuma adesão, só sinceridade.
O que se põe num altar de Mabon?
Frutos e símbolos da segunda colheita: maçãs, uvas, nozes, bolotas, abóboras, espigas de trigo, folhas de outono. Junte duas velas, uma cor de laranja e uma branca, pelo equilíbrio entre o dia e a noite. Dê preferência ao que cresce perto de si: é todo o espírito da festa.
Qual é a diferença entre Mabon e Samhain?
Mabon, no equinócio de outono, é a segunda colheita, a da fruta, e uma festa do equilíbrio e da gratidão. O Samhain, a 31 de outubro, é a terceira e última colheita, e uma festa da passagem para a escuridão e da homenagem aos antepassados. Mabon faz o balanço; o Samhain fecha o ano.
Pode fazer-se o ritual de Mabon sem lua cheia?
Sim. A Lua das colheitas é um presente em 2026, não uma condição. O ritual de Mabon está ligado ao equinócio e pode fazer-se em qualquer noite desse período, até ao início de outubro. O que conta é o tempo que tira para fazer o balanço, não a fase da Lua.
Celebro Mabon desde que comecei, e todos os anos os bagos de uva me surpreendem. Houve outonos em que me custou pousar três na taça, e outros em que tive de ir buscar um segundo cacho. Ambos estavam certos. O que aprendi em doze anos de prática é que a gratidão não é um sentimento de que se fica à espera, é um olhar que se escolhe. O Universo é um aliado poderoso, mas somos nós que temos de olhar para o campo.
Mabon, a festa pagã do equinócio de outono, não decide nada por si. Não lhe promete um inverno fácil nem uma abundância caída do céu. Oferece-lhe uma noite para ver claro, e o livre-arbítrio de escolher o que guarda. A colheita é obra sua. A reserva também. A primavera, essa, voltará de qualquer maneira.
A nota da redação: um cacho, um molho, um propósitoNão precisa de um grande ritual para honrar Mabon. Uma maçã cortada, uns bagos contados, uma espiga atada à volta de uma frase: é tudo o que é preciso para entrar no inverno com uma reserva sua. A Lua das colheitas nasce no sábado à noite. Não vai esperar por si, mas volta na noite seguinte quase à mesma hora. É esse o seu presente.
Não sabe o que pôr na taça, nem o que devia guardar para o inverno? Um guia espiritual sabe fazer as perguntas certas, aquelas que não nos atrevemos a fazer sozinhos numa noite de equinócio. |
Conhece alguém que diz detestar o outono? Envie-lhe este artigo antes de sábado à noite e proponha-lhe contar os bagos de uva consigo. 🍂
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Artigo escrito por Hélder Sousa, guia espiritual, especialista no Oráculo da Luz e nos rituais da estação.
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