Carta 3 — O Diabo: gasta para se aliviar 🔗
O Diabo ergue-se sobre um pedestal, com uma tocha na mão. Aos seus pés, duas figuras mais pequenas usam uma coleira ligada por uma corda a esse mesmo pedestal, as mãos atadas atrás das costas. O pormenor conta: não é o Diabo que segura a corda, é a base. O arcano XV fala de apego a uma estrutura. De castigo, nada.
Esta carta é a sua se:
- as suas compras concentram-se à noite, ou logo a seguir a um desgosto;
- lembra-se melhor do alívio que sentiu do que do objeto que comprou;
- já lhe aconteceu voltar a comprar algo que já tinha.
O vocabulário da culpa não lhe serve de nada aqui. Gastar funciona: age depressa, age de certeza, e custa menos do que uma noite inteira a remoer. A chatice começa quando passou a ser a única ferramenta na caixa. Já agora, a base a que a corda está presa quase nunca está na carteira: o mesmo arcano XV volta a aparecer no tarot do trabalho, do lado dos empregos que se mantêm por causa do que se perderia ao sair.
O gesto: durante sete dias, antes de cada pagamento não essencial, escreva uma única palavra: a emoção do momento. Cansaço, raiva, vazio, orgulho, tédio. Releia a coluna no domingo à noite: não tem nas mãos uma lista de compras, tem a lista daquilo que não conseguiu resolver de outra maneira. Muitas vezes, ao fim de três ou quatro dias, algumas compras deixam simplesmente de acontecer — escrever a palavra chega para travar o gesto.
A carta aliada: A Estrela (XVII). Ajoelhada à beira de água, uma rapariga nua esvazia os seus dois cântaros, um no rio e outro na terra. Não tem nada a proteger nem nada a compensar: é a carta mais serena do baralho.
Carta 4 — A Imperatriz: paga por toda a gente 👑
A Imperatriz está sentada, o cetro de um lado e o escudo do outro, com uma naturalidade que se sente em toda a carta. O arcano III é um arcano de abundância: aquele que transborda e alimenta o que está à volta, às vezes sem olhar para o que sobra no centro.
Esta carta é a sua se:
- é consigo que fica a conta, quase sempre;
- emprestou dinheiro de que nunca mais voltou a falar;
- ajudar alguém de família é uma rubrica real do seu orçamento que ninguém nunca nomeou.
Na generosidade não há nada a corrigir. O problema aparece quando se torna automática: assim que dar passa a fazer parte da identidade, recusar uma única vez parece uma traição. E uma despesa que não nos deixamos olhar acaba sempre por se ver noutro sítio, no descoberto ou nas noites em claro. A astrologia descreve o mesmo mecanismo com a casa dois e Vénus — falamos disso no dinheiro no mapa astral.
O gesto: dê a essa generosidade uma rubrica e um teto mensal, decididos por si no início do mês. O que couber na rubrica sai sem culpa. O que passar espera pelo mês seguinte. E diga que não uma vez este mês, numa quantia pequena, só para verificar que ninguém desaba.
A carta aliada: A Justiça (VIII). Sentada de frente, a balança numa mão e a espada na outra. Primeiro mede, depois corta, por esta ordem. A sua generosidade não precisa de ser mais pequena, só de ser pesada.
Carta 5 — A Temperança: aperta até não lhe sobrar nada para viver 💧
O mesmo anjo da carta 2, lido ao contrário. Aqui é como se o líquido já não circulasse: fica no vaso, e um vaso cheio que nunca se esvazia não serve absolutamente para nada. E sim, é a mesma carta que salva a 2: levada ao extremo, a medida transforma-se em travão.
Esta carta é a sua se:
- a sua poupança sobe e continua a sentir-se mais pobre do que antes;
- compara preços durante vinte minutos por uma compra de quatro euros;
- adia o dentista, o casaco, o fim de semana — «agora não».
O controlo excessivo é uma ferida do dinheiro exatamente como a compra compulsiva: nos dois casos há um número a decidir por si. Esta é particularmente resistente porque é socialmente aplaudida: ninguém o vai avisar de que está a poupar demais. Releia o que A Temperança do Tarot de Marselha diz realmente: descreve um caudal certo, um fluxo que continua a correr.
O gesto: crie uma rubrica «prazer», pequena e não negociável, que tenha obrigatoriamente de ser gasta até ao fim do mês. Marque hoje a consulta que anda a adiar. Uma poupança que nunca financia nada deixa de ser uma almofada e passa a ser uma gaveta fechada.
A carta aliada: O Sol (XIX). Duas crianças de pé debaixo de um astro com rosto humano, muito perto uma da outra. É o único arcano do baralho em que alguém tem visivelmente o direito de ser feliz já.
Carta 6 — O Papa: gere como lhe ensinaram 📜
O Papa levanta a mão diante de duas figuras ajoelhadas. O arcano V é a regra transmitida: recebe-se antes de se ter idade para a discutir e aplica-se muito depois de se ter esquecido quem a formulou.
Esta carta é a sua se:
- sobre dinheiro repete frases que ouviu aos oito anos;
- gastar consigo deixa-o desconfortável, gastar com os outros não;
- as suas finanças parecem-se com as dos seus pais, incluindo naquilo que lhes criticava.
A minha avó guardava o dinheiro em envelopes, um por rubrica, e nunca se tirava do envelope do lado. Fiquei com esse reflexo uns quinze anos sem me perguntar uma única vez se servia para a minha vida. Para ela resultava, com um ordenado fixo e despesas estáveis. Para mim não resultava nada, porque mudava de rendimento de trimestre para trimestre e esvaziava o envelope dos imprevistos logo em fevereiro. A regra era boa. Simplesmente não era dirigida a mais ninguém além dela.
O gesto: escreva as três frases sobre dinheiro que mais ouviu em criança. À frente de cada uma ponha uma cruz se ainda corresponder à sua situação real de hoje. O que ficar sem cruz tem o direito de pousar: para começar, essa regra não foi escolhida por si.
A carta aliada: O Louco. O único arcano sem número. Com a trouxa ao ombro, avança sem que ninguém lhe tenha validado o itinerário.
Porque é que basta uma carta do tarot do dinheiro para clarificar um orçamento? 🔍
Porque uma carta não pede nenhum número. É a sua vantagem decisiva sobre uma folha de cálculo: pode olhar para ela sem se sentir julgado, portanto olha durante mais tempo.
O dinheiro continua a ser o assunto sobre o qual falamos pior. As pessoas contam-me o divórcio muito antes de me dizerem quanto ganham, e eu percebo: um valor compara-se, uma imagem não. Pôr uma carta em cima da mesa desloca a conversa de «quanto» para «como», e o «como» é a única parte em que tem mesmo a mão.
Os vinte e dois arcanos maiores servem particularmente bem para este exercício porque descrevem movimentos. Nada, no baralho, corresponde a uma soma. Em contrapartida, há imagens para o que circula, o que estagna, o que se dispersa e o que se acumula — muito mais úteis, para perceber um orçamento, do que o saldo do fim do mês.
O que fazer se duas cartas lhe falam ao mesmo tempo? 🪞
Acontece muitas vezes, e até é bom sinal: as energias do dinheiro combinam-se quase sempre. O Mago e a Roda dão o clássico do dinheiro que entra bem e sai logo a seguir. O Diabo e a Imperatriz encontram-se na despesa que serve para acalmar alguém, a si ou aos outros. A Temperança e o Papa associam-se em quem aplica demasiado bem uma regra que não escreveu.
Para desempatar, não releia as descrições: releia as listas. Aquela que lhe fez levantar uma sobrancelha indica a sua carta, mesmo que a outra história lhe agrade mais. «Não sou bem eu, mas quase» costuma ser a fórmula que usamos quando somos exatamente nós.
Depois fique com um gesto só, aquele que se faz numa noite. As outras cinco cartas não se evaporam: volta a elas no próximo trimestre, com outros números e um olhar mais tranquilo. De resto, o mecanismo funciona em tudo o que contamos a nós próprios — o tarot do amor gratuito assenta exatamente no mesmo reconhecimento, com outros arcanos e outros pontos cegos.
Tarot do dinheiro: as suas perguntas frequentes ❓
O tarot do dinheiro consegue prever uma entrada de dinheiro?
Não. Nenhuma tiragem conhece o seu setor, a sua empresa nem o calendário de pagamento dos seus clientes. O que ilumina é a sua parte: as decisões que adia, as despesas que já não conta, a sua reação habitual perante um imprevisto. Menos espetacular e bastante mais útil.
Que carta do tarot anuncia a abundância financeira?
Citam-se muito a Imperatriz, o Sol ou o Mundo, mas nenhuma funciona isolada. A mesma carta muda completamente de sentido consoante as vizinhas: o Sol ao lado do Mago parece um projeto que arranca, o Sol ao lado do Diabo parece sobretudo uma despesa que está prestes a achar razoável.
Posso tirar as cartas antes de uma compra importante?
Sim, para clarificar a sua motivação, nunca para assinar por si. Uma tiragem indica bastante bem se compra por necessidade, por cansaço ou para agradar a alguém. Não diz nada sobre a taxa, a garantia nem a sua capacidade de reembolso: para isso é preciso uma folha de cálculo e, por vezes, um consultor.
Deve evitar-se tirar as cartas quando se está a descoberto?
Pelo contrário, é muitas vezes o melhor momento, com uma condição: não faça a pergunta «vou safar-me?». Essa pergunta pede uma resposta tranquilizadora com a qual não fará nada. «O que é que corto este mês?» dá uma tiragem menos agradável e muito mais útil.
O tarot ajuda a falar de dinheiro a dois?
É um dos seus usos mais eficazes. Cada um escolhe o seu número em separado e depois comparam: a conversa arranca a partir de duas imagens em vez de duas queixas. Muitas vezes vão descobrir que não tiraram a mesma carta, e que é precisamente daí que vêm as discussões de sábado de manhã.
O que o tarot do dinheiro não vai decidir por si 🌱
As seis cartas descrevem maneiras de fazer. Nenhuma emite uma sentença sobre o seu valor, e nenhuma diz que é um caso perdido com dinheiro: no máximo, apontam o sítio do orçamento para onde deixou de olhar. Os arcanos esboçam tendências, e uma tendência corrige-se; a mão que está nas suas contas é a sua, não a da carta.
O tarot do dinheiro só tem interesse se der origem a alguma coisa concreta e minúscula antes do fim da semana. E se o seu número não lhe disse mesmo nada, anote isso também: percorra o Tarot de Marselha arcano a arcano e deixe que seja outra imagem a fazer o trabalho.
A nota do editor: o degrau mais pequenoSeis listas seriam seis projetos, e não abriria nenhuma. Fique só com a sua carta e com o gesto dela, aquele que se faz numa noite: uma transferência automática de cinco por cento, um teto naquilo que dá, uma consulta finalmente marcada. No mínimo, terá deixado de desviar o olhar.
E se a sua carta acordou uma história de dinheiro mais antiga (um empréstimo que não acaba, uma dívida de família nunca resolvida, uma despesa que não se consegue explicar), meia hora com um tarólogo costuma desbravar o terreno mais depressa do que um mês de folhas de cálculo. |
De certeza que conhece alguém cujo orçamento se tornou a piada recorrente à mesa. Mande-lhe esta página e peça-lhe só o número: a conversa que vem a seguir vale quase sempre a mensagem. 💬
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